A literatura brasileira especializada em estudos africanos registra a presença, no Brasil, de escravos oriundos do noroeste da África já nos primórdios do século XVII. Artur Ramos, por exemplo, cita documento de 1607 que fala da presença haussá na Bahia (REICHERT, 1970, p. 115).
Entretanto, a partir das últimas décadas do século XVIII e ao longo do século XIX, essa presença se tornou sistemática. Foi, então, o Sudão Central, região interiorana em relação à Baía do Benin, a procedência de africanos islamizados (haussás, nupes, iorubás, bornos, borgus, etc.) levados como escravos para a Bahia, como conseqüência da jihad promovida, a partir de 1804, pelo xeque Usman dan Fodio, fundador do Califado de Sokoto, de cujas guerras expansionistas resultou o cativeiro de habitantes das áreas próximas à baía do Benin, particularmente no período compreendido entre os anos de 1804 e 1810. A presença de escravos islamizados na Bahia está relacionada, assim, a complexo desdobramento da História da África, em que se misturam religião e política, uma jihad e disputas por expansão territorial (LOVEJOY, 2000, p. 11-12).
Lovejoy (2000, p. 26), a partir da análise de material biográfico de 117 cativos destinados ao trabalho escravo na Bahia, conclui preliminarmente que 41 ou tinham nomes muçulmanos ou é quase certo que o fossem; permitindo a declaração de naturalidade inferir que 12 eram muçulmanos, aos quais talvez se somem outros 04; 37 tinham nomes cristãos e africanos, sem qualquer indício de ligação com o islamismo; 05 tinham nomes cristãos e 03, africanos não-islâmicos.
E afirma:
Embora não se saiba, dentre os escravos com nomes africanos não-muçulmanos, quantos de fato eram islâmicos; nem quantos, entre detentores de nomes africanos e cristãos, também o fossem, é razoável concluir que pelo menos 56% dos centro-sudaneses eram islamizados. É possível que tal porcentagem fosse ainda mais alta (LOVEJOY, 2000, p. 27).
Lovejoy (2000, p. 27) lembra, ainda, que a adoção de nomes muçulmanos por escravos de origem não-muçulmana indica que o processo de conversão iniciado na África tinha continuidade na Bahia. Além disso, não fica descartada a possibilidade de alguns dos cativos de origem iorubá ou nupe com nomes não-muçulmanos africanos serem efetivamente islamizados.
Entre os escravos, a prática do islamismo, diferentemente de outras manifestações religiosas africanas, não se transfigurou numa forma popular, a exemplo do catolicismo, e se verificou secretamente (QUIRING-ZOCHE, 1997, p. 232).
Embora fossem os haussás os africanos mais intensamente islamizados, os iorubás os sobrepunham, e muito, numericamente. Quanto à islamização dos escravos, depoimentos tomados quando da grande revolta malê de 1835 apontam para a sua ocorrência na terra de origem, em geral na infância e em escolas corânicas, com o aprendizado também da língua árabe (REIS, p. 09-10).
Ao deporem sobre o grau de envolvimento com o islamismo, muitos interrogados se reportaram a suas experiências africanas. Alguns disseram abertamente que haviam recebido instrução islâmica na África, possivelmente em escolas corânicas ou madrasas. O nagô Pedro, ao ser perguntado sobre um livro e vários manuscritos em árabe encontrados em seu poder, respondeu: ‘O livro continha rezas de sua terra e os papéis várias doutrinas cuja linguagem e sua ciência ele sabia antes de vir de sua terra.’ Pompeo da Silva, nagô forro, com cerca de 30 anos de idade, ‘perguntado se ele sabia ou entendia das letras arábicas que usavam os Nagôs, disse, que tendo aprendido em sua terra pequenino que agora quase nada se lembrava.’ Antônio, escravo Haussá, pescador, disse que sabia escrever em árabe, mas só escrevia ‘orações segundo o cisma de sua terra’. Ou seja, não escrevia coisas subversivas, políticas, só orações. Acrescentou que ‘quando pequeno em sua terra andava na escola’ (REIS, p. 09).
E ainda,
O escravo nagô Gaspar, preso com grande quantidade de escritos árabes, amuletos, um tessubá (o rosário malê) etc, disse ter sido ele o autor dos escritos, e que aprendera o árabe em sua terra. Ele leu trechos do que havia escrito, embora alegasse não saber traduzir para o português (REIS, p. 09-10).
Os documentos confiscados quando da rebelião de 1835 são manuscritos contendo textos corânicos, orações islâmicas não-corânicas e textos diversos, como amuletos e exercícios de escrita árabe, constituindo, com efeito, esta classificação a adotada por Reichert (1966, 1967, 1968), ao publicar, nos anos 60 do século passado, 03 artigos nos quais os edita, traduz e comenta.
Alguns documentos islâmicos produzidos na Bahia demonstram serem os seus autores mais ou menos familiarizados com a grafia árabe, mas não propriamente com a língua (DOBRONRAVIN, 2004, p. 313). Nikolay Dobronravin analisou um manuscrito localizado em Havre, escrito com caracteres árabes, cujas passagens “fonetizadas” têm características lingüísticas tais que sugerem ser o iorubá a língua principal do seu autor (DOBRONRAVIN, 2004, p. 306, 309). Fragmentos há, entretanto, de difícil identificação, parecendo árabe fonetizado (DOBRONRAVIN, 2004, p. 310, 311); outras, ainda, com grafia incorreta, provavelmente em haussá (DOBRONRAVIN, 2004, p. 311).
Dobronravin (2004, p. 314) analisou também manuscritos do Arquivo Público do Estado da Bahia. Um deles não guarda qualquer relação com o referido levante, constituindo o “primeiro manuscrito com um texto não-árabe significativo e é também o primeiro texto não-religioso até agora identificado entre os papéis malês baianos”. Trata-se de um bilhete endereçado a um malam em virtude da morte de um bebê, cujo pai pede, não se sabe ao certo, condolências ou um amuleto. Este texto, bilíngüe, árabe-haussá, com predominância desta última língua, foi tomado de um africano de origem nupe (tapa). O fragmento em haussá também traz características que denotam a condição de língua estrangeira que essa língua tinha para o autor (DOBRONRAVIN, 2004, p. 314, 315).
Um terceiro manuscrito, do qual há apenas uma reprodução publicada por Reichert, teve a sua interpretação comprometida, quando tomado por árabe. Tomado como bilíngüe, haussá nas passagens antes de difícil interpretação, torna-se compreensível (DOBRONRAVIN, 2004, p.317-318).
Documentos afro-muçulmanos localizados no Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, ilustram a utilização do árabe, a par de outras línguas africanas, no Brasil oitocentista. Um livro de orações traz passagens obscuras, provavelmente em árabe fonetizado ou em alguma língua africana (DOBRONRAVIN, 2004, p. 320-321). Um segundo documento, confiscado pela polícia gaúcha na década de 1840, possui uma anotação marginal em haussá (DOBRONRAVIN, 2004, p. 321-322).
Os manuscritos analisados por Dobronravin contrastam com outros documentos, localizados no Arquivo Público do Estado da Bahia, e editados no final dos anos 60 por Reichert, e cujos autores ou compiladores demonstravam conhecimento mais profundo da língua árabe e memorização de várias suras, reproduzidas pelos mesmos sem erros ou com poucos equívocos (DOBRONRAVIN, 2004, p. 313; REICHERT, 1966, 1967, 1968). No dizer de Reichert: “Há textos que revelam um escritor bem educado, e há outros que demonstram o esfôrço fervoroso do estudante que repete certo trecho sagrado por dúzias de vezes” (REICHERT, 1966, p. 169).
Textos islâmicos multilingües da Bahia registram, a par do uso do árabe, a língua haussá, atestando o prestígio desta etnia como “verdadeiramente muçulmana”, em detrimento da iorubá, cujos falantes constituem a maioria dos afro-muçulmanos, denotando, ainda, a importância dos haussás na islamização destes (DOBRONRAVIN, 2004, p. 324).
Quanto ao emprego da língua árabe entre os afro-muçulmanos, no século XIX constituía a principal língua escrita, ao lado do português, sendo usada principalmente no âmbito religioso (registro de amuletos, orações, suras, etc.), não chegando, entretanto, a constituir língua de comunicação cotidiana (DOBRONRAVIN, 2004, p. 325-326).
A criminalização do islamismo e da língua árabe após a revolta malê de 1835, quando o mero portar qualquer escrito árabe condenaria o seu portador à condição de réu, sujeito à deportação para a África, à exportação para outra província ou à tortura e à morte, levou ao desaparecimento de ambos, língua e religião (DOBRONRAVIN, 2004, p. 326; QUIRING-ZOCHE, 2004, p. 234).
Segundo Dobronravin:
Naquele tempo [século XIX], o árabe – principal língua escrita nas comunidades africanas, além do português – parece ter sido usado sobretudo para objetivos “mágicos” e religiosos. Não era uma língua instrumental, falada, embora praticamente todo descendente brasileiro de africano muçulmano deva ter aprendido algumas poucas expressões, ou mesmo preces e versos corânicos, em árabe. (DOBRONRAVIN, 2004, p. 325-326).
Assim, verificou-se, na Bahia escravagista, o recuo das línguas africanas e da língua corânica, em detrimento da língua da sociedade anfitriã, na qual, entretanto, exerceram influxo de superstrato, notadamente no léxico, como testemunham pesquisas lexicológicas e lexicográficas que tomam o léxico do português brasileiro como objeto.
Compartilha informações sobre o influxo da língua árabe na constituição do léxico português e, particularmente, sobre arabismos legados ao português brasileiro por afro-muçulmanos e por imigrantes árabes e/ou muçulmanos. Traz, ainda, informações acerca da dicionarização de arabismos portugueses pela Lexicografia Brasileira.portuguese arabisms; Brazilian portuguese; dictionarization of arabisms/arabismes portugaises; portugais brésilien; dictionnairisation des arabismes.
sábado, 23 de abril de 2011
A PRESENÇA DE ARABISMOS NAS LÍNGUAS AFRICANAS FALADAS NA BAHIA
A longa trajetória interlingüística de vocábulos que emigram da Península Arábica, cruzam a África e o Atlântico para desembocar no Brasil pode ser ilustrada pela própria designação por que generalizadamente são conhecidos os africanos islamizados no Brasil: malê.
Na sua Rebelião Escrava no Brasil: História do Levante dos Malês em 1835, o historiador João José Reis apresenta um glossário de termos muçulmanos e africanos (REIS, 2003, p. 605-607), buscados, provavelmente, nos depoimentos dos africanos envolvidos na revolta, nos quais abordam diferentes aspectos da sua vida social, cultural e religiosa, e nos relatos policiais decorrentes desse evento e que, juntos, constituem as fontes primárias da sua pesquisa (REIS, 2003, p. 10,11). Não se tratando de investigação lingüística, o autor não descreve a metodologia empregada na elaboração do glossário e deixa, por vezes, de informar a língua a cujo sistema lexical um vocábulo pertence ou o seu étimo. Entretanto, o glossário é precioso testemunho da ocorrência de arabismos nas línguas africanas então faladas pelos escravos islamizados na Bahia, conforme demonstram os exemplos a seguir.
Dos 58 vocábulos e/ou expressões compilados no glossário de termos muçulmanos e africanos, 23 (39,65%) são seguramente estrangeirismos de origem árabe (09 itens ou 15,51% do total das formas registradas) ou arabismos africanos (14 vocábulos ou 24,13% dos registros), isto é, empréstimos árabes em línguas africanas. Para a maioria destes últimos, há formas correspondentes em língua portuguesa. Alguns dos registros são arabismos portugueses (08 termos ou 13,8% dos vocábulos apresentados).
Constituem estrangeirismos os vocábulos baraka, ‘benção, poder espiritual, místico’; Jamā’a, ‘comunidade muçulmana’; jihād, ‘guerra santa’; Lailat al-Miraj ‘noite da ascensão do profeta Maomé ao céu’; Lailat al-Qadr, ‘Noite da Glória, Noite do Poder ou Noite do Destino, uma das festas com que se celebra o fim do Ramadã’; Qur’ān ou Al-Qur’ān, ‘livro sagrado do Islamismo’; shari’a ‘lei revelada nas escrituras’; tariqa, ‘caminho, irmandade ou ordem sufi’. Há um vocábulo híbrido, árabe-haussá, babba malami, ‘grande malām’.
Apresentam-se, a seguir, os arabismos africanos registrados no glossário, com a indicação, se fornecida, da(s) língua(s) em que ocorrem (entre parênteses), e o vocábulo correspondente em língua portuguesa: ajami – aljamia; alijano – (iorubá) aligenum; almami – imã; alufá, àlùfáà – (iorubá, sudanês ocidental alfa) alufá; anjonu – (iorubá) aligenum; Basmalah – bissimilai (bi-si-mi-lai), bismela; imàle, imàle, imole, imònle – (iorubá) malê; Jinn, djin – djim, djin; kaferi – (iorubá) cafre; malām, malami, málàmi [pl. malamai] – (haussá) malê; marabout – marabuto; mussulmi – (haussá) muçulmi, muçulmin, muçurumim, muçumirim, muslim, mussurumi; shehu – (haussá) xeque.
Um dos arabismos africanos não tem equivalente em português: àllo (haussá), ‘prancheta para escrever’.
Em português, há: imã; limano – (< iorubá lemomo e este do ár. al-imām) Tem por variantes limano, limamo, lemano, lemane, lamane, almámy, el-imámy, imã; malê – (< iorubá imàle ou imole e estas do ár. mu’allim); muezim; sufi; sura, tessubá – tecebá, tessebá, teçubá, tessubá e xeque. Assim, dentre os 31 vocábulos e/ou expressões originados na língua árabe apresentados no glossário, 29 % estão em língua árabe; 45,2 % são arabismos verificados em línguas africanas e 25,8% constituem arabismos portugueses. Analisou-se o registro deste vocabulário nas obras Falares Africanos na Bahia: um Vocabulário Afro-Brasileiro (PESSOA DE CASTRO, 2009) e Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (LOPES, 2004), com o intuito de identificar a origem – africana ou árabe – atribuída ao mesmo. Registram-se, em Falares Africanos na Bahia, 05 vocábulos: alijeno (haussá àljànu, àlujànún); alufá (kwa, iorubá àlúfá > fon alufa); imã (kwa, fon/iorubá ìmàn < haussá imami); limano (haussá, identificado como arcaico, apresentando, ainda, a variante limani) e malê (kwa, fon malè, iorubá ìmalè).
Na Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, encontram-se 13 destas formas: alijenum (haussá alijannu, equivalente ao iorubá àlùjanun); alufá (<ár. alfa, através do iorubá alufa); anjonu (registrando ainda awanjonu, sem indicação de origem); baraka (sem indicação de origem); Bissimilai (sem atribuição de origem); cafres (“parece” ter origem no ár. kaffir); jihād (sem indicação de origem); limane (< haussá liman, registrando, ainda, limano); malê (< iorubá ìmale); marabu (sem atribuição de origem); muezim (sem atribuição de origem); alcorão (sem indicação de origem) e tessubá (
Evidencia-se, assim, a necessidade de investigar o influxo árabe nas línguas africanas introduzidas na Bahia escravagista, que, seguramente, constituíram línguas-ponte na transmissão de itens lexicais de origem árabe ao português brasileiro.
Na sua Rebelião Escrava no Brasil: História do Levante dos Malês em 1835, o historiador João José Reis apresenta um glossário de termos muçulmanos e africanos (REIS, 2003, p. 605-607), buscados, provavelmente, nos depoimentos dos africanos envolvidos na revolta, nos quais abordam diferentes aspectos da sua vida social, cultural e religiosa, e nos relatos policiais decorrentes desse evento e que, juntos, constituem as fontes primárias da sua pesquisa (REIS, 2003, p. 10,11). Não se tratando de investigação lingüística, o autor não descreve a metodologia empregada na elaboração do glossário e deixa, por vezes, de informar a língua a cujo sistema lexical um vocábulo pertence ou o seu étimo. Entretanto, o glossário é precioso testemunho da ocorrência de arabismos nas línguas africanas então faladas pelos escravos islamizados na Bahia, conforme demonstram os exemplos a seguir.
Dos 58 vocábulos e/ou expressões compilados no glossário de termos muçulmanos e africanos, 23 (39,65%) são seguramente estrangeirismos de origem árabe (09 itens ou 15,51% do total das formas registradas) ou arabismos africanos (14 vocábulos ou 24,13% dos registros), isto é, empréstimos árabes em línguas africanas. Para a maioria destes últimos, há formas correspondentes em língua portuguesa. Alguns dos registros são arabismos portugueses (08 termos ou 13,8% dos vocábulos apresentados).
Constituem estrangeirismos os vocábulos baraka, ‘benção, poder espiritual, místico’; Jamā’a, ‘comunidade muçulmana’; jihād, ‘guerra santa’; Lailat al-Miraj ‘noite da ascensão do profeta Maomé ao céu’; Lailat al-Qadr, ‘Noite da Glória, Noite do Poder ou Noite do Destino, uma das festas com que se celebra o fim do Ramadã’; Qur’ān ou Al-Qur’ān, ‘livro sagrado do Islamismo’; shari’a ‘lei revelada nas escrituras’; tariqa, ‘caminho, irmandade ou ordem sufi’. Há um vocábulo híbrido, árabe-haussá, babba malami, ‘grande malām’.
Apresentam-se, a seguir, os arabismos africanos registrados no glossário, com a indicação, se fornecida, da(s) língua(s) em que ocorrem (entre parênteses), e o vocábulo correspondente em língua portuguesa: ajami – aljamia; alijano – (iorubá) aligenum; almami – imã; alufá, àlùfáà – (iorubá, sudanês ocidental alfa) alufá; anjonu – (iorubá) aligenum; Basmalah – bissimilai (bi-si-mi-lai), bismela; imàle, imàle, imole, imònle – (iorubá) malê; Jinn, djin – djim, djin; kaferi – (iorubá) cafre; malām, malami, málàmi [pl. malamai] – (haussá) malê; marabout – marabuto; mussulmi – (haussá) muçulmi, muçulmin, muçurumim, muçumirim, muslim, mussurumi; shehu – (haussá) xeque.
Um dos arabismos africanos não tem equivalente em português: àllo (haussá), ‘prancheta para escrever’.
Em português, há: imã; limano – (< iorubá lemomo e este do ár. al-imām) Tem por variantes limano, limamo, lemano, lemane, lamane, almámy, el-imámy, imã; malê – (< iorubá imàle ou imole e estas do ár. mu’allim); muezim; sufi; sura, tessubá – tecebá, tessebá, teçubá, tessubá e xeque. Assim, dentre os 31 vocábulos e/ou expressões originados na língua árabe apresentados no glossário, 29 % estão em língua árabe; 45,2 % são arabismos verificados em línguas africanas e 25,8% constituem arabismos portugueses. Analisou-se o registro deste vocabulário nas obras Falares Africanos na Bahia: um Vocabulário Afro-Brasileiro (PESSOA DE CASTRO, 2009) e Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (LOPES, 2004), com o intuito de identificar a origem – africana ou árabe – atribuída ao mesmo. Registram-se, em Falares Africanos na Bahia, 05 vocábulos: alijeno (haussá àljànu, àlujànún); alufá (kwa, iorubá àlúfá > fon alufa); imã (kwa, fon/iorubá ìmàn < haussá imami); limano (haussá, identificado como arcaico, apresentando, ainda, a variante limani) e malê (kwa, fon malè, iorubá ìmalè).
Na Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, encontram-se 13 destas formas: alijenum (haussá alijannu, equivalente ao iorubá àlùjanun); alufá (<ár. alfa, através do iorubá alufa); anjonu (registrando ainda awanjonu, sem indicação de origem); baraka (sem indicação de origem); Bissimilai (sem atribuição de origem); cafres (“parece” ter origem no ár. kaffir); jihād (sem indicação de origem); limane (< haussá liman, registrando, ainda, limano); malê (< iorubá ìmale); marabu (sem atribuição de origem); muezim (sem atribuição de origem); alcorão (sem indicação de origem) e tessubá (
terça-feira, 2 de março de 2010
Revista Aljamía
A Aljamía – Revista de información Bibliográfica, publicada pela Universidad de Oviedo (Espanha), trata de mudéjares e mouriscos, textos aljamiados, filologia árabo-românica e relações entre o Islã e o Ocidente. Publica artigos, resenhas, notícias de projetos e de pesquisas em andamento, resumos de dissertações e de teses recentemente defendidos, bem como informes sobre eventos relacionados aos temas em pauta, constituindo, com efeito, referência obrigatória para pesquisadores neles interessados.
Contato: aljamia@uniovi.es.
Contato: aljamia@uniovi.es.
Editora Almádena
A Editora Almádena, fundada no Rio de Janeiro em 2007, foi idealizada pelo Dr. João Baptista de Medeiros Vargens, professor aposentado do Setor de Estudos Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a finalidade, dentre outras, de divulgar a cultura árabe-islâmica.
Outras informações no site www.almadenaeditora.com ou através do e-mail almadena@uol.com.br.
Outras informações no site www.almadenaeditora.com ou através do e-mail almadena@uol.com.br.
Grupo Profala
O Profala é um grupo de pesquisa, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade Federal do Ceará, que tem por objetivo disponibilizar um banco de dados sobre o português falado no Ceará, possibilitando a sua análise descritiva, considerando-se os aspectos fonéticos, morfossintáticos, lexicais, semânticos e pragmáticos.
O corpus do Projeto Profala é constituído de 190 entrevistas, coletadas na região do Cariri por 39 documentadores- estudantes da Pós-Graduação em Linguística da Urca, nas quais informantes de diferentes idades, com graus diversificados de escolaridade e de ambos os sexos relatam experiências pessoais. Classificam-se os informantes, ainda, quanto à sua origem urbana ou rural.
Maiores informações sobre o Profala nos endereços abaixo:
http://profala.blogspot.com/
http://www.profala.ufc.br/
O corpus do Projeto Profala é constituído de 190 entrevistas, coletadas na região do Cariri por 39 documentadores- estudantes da Pós-Graduação em Linguística da Urca, nas quais informantes de diferentes idades, com graus diversificados de escolaridade e de ambos os sexos relatam experiências pessoais. Classificam-se os informantes, ainda, quanto à sua origem urbana ou rural.
Maiores informações sobre o Profala nos endereços abaixo:
http://profala.blogspot.com/
http://www.profala.ufc.br/
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
CARACTERIZAÇÃO DOS ESTUDOS DOS ARABISMOS
A parcialidade geralmente verificada na interpretação da conquista da Península Ibérica pelos muçulmanos – e das suas conseqüências – se reflete no estudo dos arabismos.
Há pesquisadores que subestimam o influxo sócio-cultural muçulmano e desta postura ideológica resulta inadequado tratamento dos dados lingüísticos, cujo número de empréstimos árabes efetivamente fazem minguar ou reduzem a vocábulos designativos de referentes da vida rural. Dentre os partidários desta ideologia se encontra Francisco Javier Simonet (1829-1897), catedrático de língua árabe na Universidade de Granada, que chega a procurar no moçárabe influxos românicos (ibéricos) e latinos, como se se negasse a reconhecer-lhe traços tomados ao árabe, invertendo o papel de prestígio social do conquistador face ao conquistado e da direção mais provável do influxo (Glosario de Voces Ibéricas y Latinas Usadas entre los Mozárabes, 1888) (CORRIENTE, 1996, p. 2; MACHADO, 1997, p. 113, 114).
Em José Pedro Machado lê-se, por exemplo, que os muçulmanos deixaram, como vestígio da sua presença em solo posteriormente português, apenas dezenas de vocábulos designativos de objetos de primeira necessidade, que não restaram indícios seguros da cultura dos muçulmanos em Portugal e que só há registro da aprendizagem do árabe pelos portugueses quando estes se estabeleceram no Norte da África. Tais afirmações constituem erro histórico que pode, pela distorção da realidade extralingüística, comprometer a descrição histórica da língua de uma comunidade de fala.
O reducionismo encontra na exaltação do influxo muçulmano a sua antítese. O avançado desenvolvimento técnico-científico dos invasores, o refinamento e o luxo que caracterizam as suas cortes (califados e emirados) maravilham pesquisadores, que creditam ao árabe a fonte de inúmeros hábitos ocidentais – lingüísticos ou não. Destarte, o número de arabismos é ampliado por vocábulos que efetivamente não o são, mas que o desejo de se verem herdeiros de brilhante civilização os fez entender enquanto tal. Dozy é representante característico deste grupo ideológico. Observe-se que, ao revisá-lo, ele aumenta significativamente o número de páginas do Dictionnaire de Engelmann.
Ratifique-se a boa intenção destes pesquisadores, cuja boa-fé não se questiona. Apenas se sugere que estudos mais recentes – e não apenas do âmbito da Lingüística, mas da própria História – possibilitam o “ajuste” do quadro, nos pontos em que os seus pintores carregaram nas tintas ou nos quais o registro de uma versão muito subjetiva da realidade desfigurou o objeto retratado, a ponto de não ser mais possível identificá-lo.
Hoje, conhece-se a amplitude do influxo muçulmano na cultura ibérica medieval, decorrente da situação política de dominador, reforçada pelo efetivo avanço técnico-científico nas mais diversas áreas (Medicina, Agricultura, Artes), creditando-se às comunidades cristã e judaica a diferenciação exclusiva pela fé professada, mas aculturadas e arabizadas nos demais aspectos (como vestuário, culinária e diversão). É de se esperar, portanto, que o influxo resultante deste contato de línguas seja mais expressivo do que o apontado por José Pedro Machado (MACHADO, 1997, p. 113, 114, 117; CORRIENTE, 1996, p. 4-5).
Do ponto de vista lingüístico, o romance andaluz, língua românica, é comum às comunidades cristã e judaica, mas, da estreita convivência destas com a língua e a cultura árabes, adquire numerosos empréstimos lexicais, e, mais tarde, quando se acirra a intolerância religiosa por parte das dinastias norte-africanas almôada e almorávida, e a população moçárabe migra sistematicamente em direção ao norte, tais arabismos do romance andaluz são transmitidos aos falares cristãos setentrionais.
Desconhecem-se estudos sobre arabismos introduzidos no português brasileiro pela imigração de muçulmanos oriundos do próprio Oriente Médio, em diferentes fluxos migratórios conhecidos pela sociedade brasileira, apesar de estes deslocamentos configurarem inegável fato histórico. A literatura especializada registra apenas a introdução de vocabulário da culinária pelos imigrantes sírio-libaneses.
Quanto à contribuição afro-muçulmana ao léxico do português americano, cite-se o estudo de Faris Antônio S. Michaele, Arabismos entre os Africanos na Bahia (1968), com análise de inúmeros arabismos de diferentes campos semânticos (religião, alimentos).
A invasão do Afeganistão e do Iraque pelos Estados Unidos da América, conflitos ininterruptos entre israelenses e os vizinhos libaneses e palestinos e o programa iraniano de enriquecimento de urânio tornaram corriqueiras informações sobre o mundo islâmico nos noticiários internacionais e introduziram, pelo menos no léxico passivo dos falantes de português, vocábulos como jihad, intifada, xador, burca, xariá, sura, dentre outros. Entretanto, nem sempre o falante tem consciência de que se trata de arabismos naturalmente transmitidos à língua portuguesa quando a comunidade que a fala é exposta a informações a respeito do outro, aloglota, cujas especificidades culturais são aprendidas com o vocabulário que as designa.
Há pesquisadores que subestimam o influxo sócio-cultural muçulmano e desta postura ideológica resulta inadequado tratamento dos dados lingüísticos, cujo número de empréstimos árabes efetivamente fazem minguar ou reduzem a vocábulos designativos de referentes da vida rural. Dentre os partidários desta ideologia se encontra Francisco Javier Simonet (1829-1897), catedrático de língua árabe na Universidade de Granada, que chega a procurar no moçárabe influxos românicos (ibéricos) e latinos, como se se negasse a reconhecer-lhe traços tomados ao árabe, invertendo o papel de prestígio social do conquistador face ao conquistado e da direção mais provável do influxo (Glosario de Voces Ibéricas y Latinas Usadas entre los Mozárabes, 1888) (CORRIENTE, 1996, p. 2; MACHADO, 1997, p. 113, 114).
Em José Pedro Machado lê-se, por exemplo, que os muçulmanos deixaram, como vestígio da sua presença em solo posteriormente português, apenas dezenas de vocábulos designativos de objetos de primeira necessidade, que não restaram indícios seguros da cultura dos muçulmanos em Portugal e que só há registro da aprendizagem do árabe pelos portugueses quando estes se estabeleceram no Norte da África. Tais afirmações constituem erro histórico que pode, pela distorção da realidade extralingüística, comprometer a descrição histórica da língua de uma comunidade de fala.
O reducionismo encontra na exaltação do influxo muçulmano a sua antítese. O avançado desenvolvimento técnico-científico dos invasores, o refinamento e o luxo que caracterizam as suas cortes (califados e emirados) maravilham pesquisadores, que creditam ao árabe a fonte de inúmeros hábitos ocidentais – lingüísticos ou não. Destarte, o número de arabismos é ampliado por vocábulos que efetivamente não o são, mas que o desejo de se verem herdeiros de brilhante civilização os fez entender enquanto tal. Dozy é representante característico deste grupo ideológico. Observe-se que, ao revisá-lo, ele aumenta significativamente o número de páginas do Dictionnaire de Engelmann.
Ratifique-se a boa intenção destes pesquisadores, cuja boa-fé não se questiona. Apenas se sugere que estudos mais recentes – e não apenas do âmbito da Lingüística, mas da própria História – possibilitam o “ajuste” do quadro, nos pontos em que os seus pintores carregaram nas tintas ou nos quais o registro de uma versão muito subjetiva da realidade desfigurou o objeto retratado, a ponto de não ser mais possível identificá-lo.
Hoje, conhece-se a amplitude do influxo muçulmano na cultura ibérica medieval, decorrente da situação política de dominador, reforçada pelo efetivo avanço técnico-científico nas mais diversas áreas (Medicina, Agricultura, Artes), creditando-se às comunidades cristã e judaica a diferenciação exclusiva pela fé professada, mas aculturadas e arabizadas nos demais aspectos (como vestuário, culinária e diversão). É de se esperar, portanto, que o influxo resultante deste contato de línguas seja mais expressivo do que o apontado por José Pedro Machado (MACHADO, 1997, p. 113, 114, 117; CORRIENTE, 1996, p. 4-5).
Do ponto de vista lingüístico, o romance andaluz, língua românica, é comum às comunidades cristã e judaica, mas, da estreita convivência destas com a língua e a cultura árabes, adquire numerosos empréstimos lexicais, e, mais tarde, quando se acirra a intolerância religiosa por parte das dinastias norte-africanas almôada e almorávida, e a população moçárabe migra sistematicamente em direção ao norte, tais arabismos do romance andaluz são transmitidos aos falares cristãos setentrionais.
Desconhecem-se estudos sobre arabismos introduzidos no português brasileiro pela imigração de muçulmanos oriundos do próprio Oriente Médio, em diferentes fluxos migratórios conhecidos pela sociedade brasileira, apesar de estes deslocamentos configurarem inegável fato histórico. A literatura especializada registra apenas a introdução de vocabulário da culinária pelos imigrantes sírio-libaneses.
Quanto à contribuição afro-muçulmana ao léxico do português americano, cite-se o estudo de Faris Antônio S. Michaele, Arabismos entre os Africanos na Bahia (1968), com análise de inúmeros arabismos de diferentes campos semânticos (religião, alimentos).
A invasão do Afeganistão e do Iraque pelos Estados Unidos da América, conflitos ininterruptos entre israelenses e os vizinhos libaneses e palestinos e o programa iraniano de enriquecimento de urânio tornaram corriqueiras informações sobre o mundo islâmico nos noticiários internacionais e introduziram, pelo menos no léxico passivo dos falantes de português, vocábulos como jihad, intifada, xador, burca, xariá, sura, dentre outros. Entretanto, nem sempre o falante tem consciência de que se trata de arabismos naturalmente transmitidos à língua portuguesa quando a comunidade que a fala é exposta a informações a respeito do outro, aloglota, cujas especificidades culturais são aprendidas com o vocabulário que as designa.
BIBLIOGRAFIA ESPECIALIZADA
Há mais de 200 anos os arabismos constituem tema de investigação. São apresentados, aqui, abreviadamente, alguns autores e obras, organizados conforme configurem textos clássicos, contemporâneos, estrangeiros ou nacionais.
1. Obras Clássicas:
a) Vestígios da Lingua Arabica em Portugal ou Lexikon Etymologico das Palavras e Nomes Portuguezes, que Tem Origem Arabica, publicada em 1789 por Fr. João de Sousa, com segunda edição realizada por José de Santo Antônio Moura em 1830;
b) Cousas arábico-Portuguesas: Algumas Etimologias e Alguns Vocábulos Portugueses de Natureza Religiosa de David Lopes;
c) Dictionnaire des Mots Espagnols et Portugais Derivés de l’Arabe, publicada pelo arabista holandês W. H. Engelmann em 1861, com segunda edição ampliada publicada por Reinhart Dozy;
d) Glosario Etimológico de las Palabras Españolas de Origen Oriental, de Leopoldo de Eguílaz y Yanguas, publicado em 1886 e reeditado em 1974;
e) Ensaios Arábico-Portugueses de José Pedro Machado (1997);
f) Influência arábica no vocabulário português, também de José Pedro Machado (1950, v. 1);
g) Influências Orientais na Língua Portuguesa de Miguel Nimer, originalmente publicada em 1943 (tomo I) e 1944 (tomo II).
Mencione-se, ainda, por freqüentemente serem citadas em pesquisas sobre arabismos, a Arte para Ligeramente saber la lengua arauiga e o Vocabulista Arauigo en Letra Castellana, sobre a língua árabe de Granada, publicadas em volume único em Granada, em 1505, pelo Frei Pedro de Alcalá, com o intuito de otimizar a aprendizagem do árabe por padres envolvidos na catequese de cristãos-novos.
2. Obras Recentes:
a) Diccionario de arabismos y voces afines em iberorromance, de 1999 com segunda edição de 2003. Esta é atualmente a mais importante obra da Filologia Árabo-Românica;
b) Des Premiers Dictionnaires (Jeronimo Cardoso) aux Textes: L’Apport Lexical des Arabismes dans la Langue Portugaise du XVIe Siècle, tese de doutoramento de Myriam Benarroch, defendida em 2000 na França;
c) Iberoromanische Arabismen im Bereich Urbanismus und Wohn Kultur: Sprachliche und kulturhistorische Untersuchungen, tese de doutorado de Yvonne Kiegel-Keicher, foi publicada em janeiro de 2005
d) Arabismos: Uma Mini-Enciclopédia do Mundo Árabe, de Rubem Franca (1994);
e) Dicionário de Termos Árabes da Língua Portuguesa, de Júlio Doin Vieira (2006);
f) Léxico Português de Origem Árabe: Subsídios para os Estudos de Filologia, de João Baptista de Medeiros Vargens (2007).
3. Arabismos de domínios não-ibéricos:
Os arabismos em outros domínios voltaram a ser investigados, como demonstra a obra de Majid El Houssi, Les Arabismes dans la Langue Française (2002), além de teses e artigos com o propósito de revisar verbetes de arabismos de dicionários de grande porte, a exemplo da tese de doutorado de Mostafa Ammadi, sobre arabismos no Diccionario de la Real Academia Española, e os artigos da pesquisadora recentemente falecida Françoise Quinsat, sobre os arabismos na versão eletrônica do Trésor de la Langue Française.
No âmbito das línguas germânicas, uma tese de Doutorado, defendida em 1994 na Universidade de Heidelberg por Raja Tazi, Die Arabismen im Deutschen: lexikalische Interferenzen vom Arabischen ins Deutsche, descreve 200 arabismos alemães de uso comum, dos cerca de 350 previstos para esta língua. O trabalho contextualiza sócio-historicamente a aquisição dos empréstimos pelo alemão e fala dos idiomas que intermediaram o processo.
4. Arabismos no Português Brasileiro:
Uma minuciosa descrição do contato entre árabes e africanos, a islamização/arabização da África e o uso de arabismos por afro-muçulmanos à época da escravidão no Brasil foi feita por Faris Antônio S. Michaele em Arabismos entre os Africanos na Bahia, obra publicada em Curituba, pela editora Requião, em 1968.
Desconhecemos estudos sobre o influxo lexical árabe no português brasileiro em decorrência da imigração mais recente, com predominância de imigrantes muçulmanos. A literatura especializada registra o legado da primeira fase de imigração, sírio-libanesa e majoritariamente cristã, cuja herança lexical é restrita ao campo semântico da culinária.
1. Obras Clássicas:
a) Vestígios da Lingua Arabica em Portugal ou Lexikon Etymologico das Palavras e Nomes Portuguezes, que Tem Origem Arabica, publicada em 1789 por Fr. João de Sousa, com segunda edição realizada por José de Santo Antônio Moura em 1830;
b) Cousas arábico-Portuguesas: Algumas Etimologias e Alguns Vocábulos Portugueses de Natureza Religiosa de David Lopes;
c) Dictionnaire des Mots Espagnols et Portugais Derivés de l’Arabe, publicada pelo arabista holandês W. H. Engelmann em 1861, com segunda edição ampliada publicada por Reinhart Dozy;
d) Glosario Etimológico de las Palabras Españolas de Origen Oriental, de Leopoldo de Eguílaz y Yanguas, publicado em 1886 e reeditado em 1974;
e) Ensaios Arábico-Portugueses de José Pedro Machado (1997);
f) Influência arábica no vocabulário português, também de José Pedro Machado (1950, v. 1);
g) Influências Orientais na Língua Portuguesa de Miguel Nimer, originalmente publicada em 1943 (tomo I) e 1944 (tomo II).
Mencione-se, ainda, por freqüentemente serem citadas em pesquisas sobre arabismos, a Arte para Ligeramente saber la lengua arauiga e o Vocabulista Arauigo en Letra Castellana, sobre a língua árabe de Granada, publicadas em volume único em Granada, em 1505, pelo Frei Pedro de Alcalá, com o intuito de otimizar a aprendizagem do árabe por padres envolvidos na catequese de cristãos-novos.
2. Obras Recentes:
a) Diccionario de arabismos y voces afines em iberorromance, de 1999 com segunda edição de 2003. Esta é atualmente a mais importante obra da Filologia Árabo-Românica;
b) Des Premiers Dictionnaires (Jeronimo Cardoso) aux Textes: L’Apport Lexical des Arabismes dans la Langue Portugaise du XVIe Siècle, tese de doutoramento de Myriam Benarroch, defendida em 2000 na França;
c) Iberoromanische Arabismen im Bereich Urbanismus und Wohn Kultur: Sprachliche und kulturhistorische Untersuchungen, tese de doutorado de Yvonne Kiegel-Keicher, foi publicada em janeiro de 2005
d) Arabismos: Uma Mini-Enciclopédia do Mundo Árabe, de Rubem Franca (1994);
e) Dicionário de Termos Árabes da Língua Portuguesa, de Júlio Doin Vieira (2006);
f) Léxico Português de Origem Árabe: Subsídios para os Estudos de Filologia, de João Baptista de Medeiros Vargens (2007).
3. Arabismos de domínios não-ibéricos:
Os arabismos em outros domínios voltaram a ser investigados, como demonstra a obra de Majid El Houssi, Les Arabismes dans la Langue Française (2002), além de teses e artigos com o propósito de revisar verbetes de arabismos de dicionários de grande porte, a exemplo da tese de doutorado de Mostafa Ammadi, sobre arabismos no Diccionario de la Real Academia Española, e os artigos da pesquisadora recentemente falecida Françoise Quinsat, sobre os arabismos na versão eletrônica do Trésor de la Langue Française.
No âmbito das línguas germânicas, uma tese de Doutorado, defendida em 1994 na Universidade de Heidelberg por Raja Tazi, Die Arabismen im Deutschen: lexikalische Interferenzen vom Arabischen ins Deutsche, descreve 200 arabismos alemães de uso comum, dos cerca de 350 previstos para esta língua. O trabalho contextualiza sócio-historicamente a aquisição dos empréstimos pelo alemão e fala dos idiomas que intermediaram o processo.
4. Arabismos no Português Brasileiro:
Uma minuciosa descrição do contato entre árabes e africanos, a islamização/arabização da África e o uso de arabismos por afro-muçulmanos à época da escravidão no Brasil foi feita por Faris Antônio S. Michaele em Arabismos entre os Africanos na Bahia, obra publicada em Curituba, pela editora Requião, em 1968.
Desconhecemos estudos sobre o influxo lexical árabe no português brasileiro em decorrência da imigração mais recente, com predominância de imigrantes muçulmanos. A literatura especializada registra o legado da primeira fase de imigração, sírio-libanesa e majoritariamente cristã, cuja herança lexical é restrita ao campo semântico da culinária.
Assinar:
Postagens (Atom)
Apresentação
Este blog foi criado para compartilhar informações acerca das conseqüências do contato entre as línguas árabe e portuguesa verificado em 03 contextos específicos: a Península Ibérica medieval, o Brasil escravagista e o Brasil da imigração.
A este tema se dedica a autora deste 1992, quando se apaixonou pelo assunto ao preparar o trabalho de conclusão da disciplina Filologia Românica II (sobre o domínio lingüístico ibérico) na graduação em Letras na Universidade Federal da Bahia.
O referido trabalho, sobre o vocábulo azulejo, descortinou um mundo aparentemente perdido, europeu e medieval, mas que, em verdade, continua vivo no Português Brasileiro, nos arabismos transplantados com o Português Europeu, aos quais se juntaram outros, adquiridos já na Terra Brasilis, por meio de escravos islamizados e de imigrantes arabófonos que ainda hoje chegam ao nosso país.
Os arabismos do Português Brasileiro requerem investigação pautada na etnolingüística e na sociolingüística do contato intercomunitário, complementando o que a literatura especializada já documenta, mas que se restringe aos arabismos ibéricos, mencionando, quando muito, o influxo lexical da migração sírio-libanesa no Brasil.
A este tema se dedica a autora deste 1992, quando se apaixonou pelo assunto ao preparar o trabalho de conclusão da disciplina Filologia Românica II (sobre o domínio lingüístico ibérico) na graduação em Letras na Universidade Federal da Bahia.
O referido trabalho, sobre o vocábulo azulejo, descortinou um mundo aparentemente perdido, europeu e medieval, mas que, em verdade, continua vivo no Português Brasileiro, nos arabismos transplantados com o Português Europeu, aos quais se juntaram outros, adquiridos já na Terra Brasilis, por meio de escravos islamizados e de imigrantes arabófonos que ainda hoje chegam ao nosso país.
Os arabismos do Português Brasileiro requerem investigação pautada na etnolingüística e na sociolingüística do contato intercomunitário, complementando o que a literatura especializada já documenta, mas que se restringe aos arabismos ibéricos, mencionando, quando muito, o influxo lexical da migração sírio-libanesa no Brasil.